Domingo, Março 12, 2006

Uma (im)possível resposta

Literatura recontada, parafraseada, transformada, aproveitada, adaptada, reinventada: possibilidades contemporâneas ou falta de criatividade ?


Não penso em falta de criatividade de hipótese alguma... Creio que , muito pelo contrário, é muita criatividade e sinal de muita audácia reverter ou subverter ou transgredir ou escapulir ou entortar ou rever as coisas, as histórias, as pessoas, o mundo!!!

Que bom que nós, humanos, aprendemos, ainda que lentamente , que podemos contar as histórias de outros jeitos... de outras formas...sob outras óticas... A nossa reação face a esta hipótese nos descortina a nossa própria visão da existência: se podemos contar histórias tão contadas por séculos de outra maneira, incluindo personagens, mudando cenários, fazendo novo clímax e desfazendo os parâmetros antigos... revelando as entrelinhas, descobrindo outros pontos de vista... QUE BOM !!!!!!!!! ESTAMOS SALVOS, SERES HUMANOS!!!!!

Divago um pouco agora e viajo na hipótese: vai ver que o grafocentrismo do mundo moderno pode ter sido exatamente um plano maquiavélico de soberanos da antiguidade para aprisionar a alma e a mente humana (risos). Sim, se se quis por um código, um conjunto de signos, representar a fala, os sentimentos e os pensamentos, pode-se ter ambicionado encarcerar a liberdade de expressão artística, as múltiplas linguagens (mais risos)... Vai ver que quem inventou a escrita queria acabar com a capacidade de se aumentarem os pontos ao se contarem os contos lá no tempo dos hieróglifos do Antigo Egito.
Hum... já sei ! Tive uma “eureca” ! E então...

Era uma vez um tal de faraó muito rico e bonito (já repararam como se associa a idéia de riqueza à de beleza?). Possuía muito ouro, prata e pedras preciosas. Seu reino era enorme e tinha um exército de ESCRAVOS. Enciumado por ver que seus antepassados viraram lenda , portanto eram cada vez mais mitológicos, grandiosos, heróicos, pediu então ajuda a um astronauta... ops, aos deuses (eta ! eram ou não os deuses astronautas?) .
Aí... (adoro as crianças contando histórias... sempre vem o aí... por isso não o abandono) Aí, o faraó ficou resetando seu cérebro humano pra ver se a solução surgia. Naquele tempo, ele não pôde ler A Arte da Guerra porque o livro ainda não tinha sido escrito (nem escrita havia...nem imprensa de Gutenberg nem nada). Desesperado, sem saber como conter aquela fama toda dos antigos faraós, seus antepassados, invocou todo o céu e não é que recebeu ajuda dos seres extraterrestres ? (EXTRATERRESTRE ??!!!!!! Ora, por que o espanto? Se os deuses moram lá no céu não são então extra = fora + terrestres?)
Aí foi iluminado. Descobriu que água mole ou estaca afiada, se bater na pedra, fura. E juntou um séqüito de homens. Mandou que eles registrassem, na enorme pirâmide que construiu para “viver após a morte”, todas as suas riquezas e seus feitos e suas glórias. Mas pediu a eles que estavam inventando a escrita, que aumentassem também um pouco os pontos... Ele queria ser o maioral de todas as dinastias. E baixou então um decreto: a partir daquela hora, só o que estava escrito valia. A palavra falada perdeu então a sua importância– vai ver que é por isso que hoje a gente não pode entrar num supermercado, comprar comida e DIZER que vai pagar no próximo mês... Não, não... temos que assinar um papirinho moderno pré-datado ou então ESCREVER nosso nome num boletinho on line para 30 dias...
A partir de então, a vaidade do faraó determinava o que era verdade : nada mais que fosse dito era crível. E o povo, obediente, parou de contar as histórias de seus antepassados ou passou a contá-las como se fossem fantasias lendárias. Tem mais ainda, caro leitor, como só havia poucos homens capazes de imprimir na pedra os tais símbolos gráficos, ele resolveu que o CONHECIMENTO da escrita seria para poucos a fim de evitar que a dispersão da técnica fizesse com que os mais teimosos contassem outras histórias melhores ou mais homéricas para os seus súditos. Só o documento assegurava a verdade e assim se esfacelou o conhecimento passado de geração em geração. Tudo virou dúvida quando antes eram verdades ou, no mínimo, possibilidades.
Mas como os deuses não são de todo ruins e não servem a apenas um senhor, ficaram com pena da humanidade, especialmente daqueles velhinhos que reuniam as crianças em torno de si para lhes falar do passado. E então sopraram no ouvido deles a novidade. Sábios que eram, os anciãos decidiram aprender a escrever e começaram a secretamente transmitir o conhecimento para as crianças. E elas foram percebendo que, quando inventassem a escola, poderiam ter a sua liberdade de expressão de novo garantida.
Mas o malvado do faraó só pensava no próprio umbigo, ostentava ouro, prata e buscava aparentar o que não era: um rei ou líder de verdade. Que... estava longe disto! Na busca insana da sua eternidade de fama, Vossa Celebridade convocou os assessores e lhes exigiu uma solução. Pensaram, pensaram, pensaram.
E tomaram uma decisão : a partir daquele momento, os cargos todos só poderiam realmente ser ocupados por quem o poder determinasse. Assim, os líderes estariam todos comprometidos com a troca de favores e seriam vigias para o faraó. Como gozavam os puxa-sacos de uma série de benefícios, muitos se batiam para ter este cargo (lá vem a tal de ambição de novo, estragando e bagunçando o coreto...). E foi assim que o faraó foi dizendo que esta profissão era mais importante que aquela, que tal função não era importante... Além de indicar os chefes da educação e dos demais setores, o poder ficou com a função de determinar os conteúdos estudados, as versões permitidas da História, as normas gramaticalmente válidas, o currículo a ser estudado... tudo, tudo o mais!
Resultado deste dois mais dois todo: os mais velhos, homens e mulheres que professavam as múltiplas verdades de vivências e saberes das gerações antigas, e também as lições de senso comum foram desvalorizados numa das maiores manobras de inversão de valores da história. Deste modo, o pronunciamento foi um momento solene, para o qual só foram convidados os mais VIP´s . A nova lei ditava: “me agrade, eu sou o poder, eu tenho a força e você pode se dar bem se estiver do meu lado”. Muitos se curvaram, então, para o faraó passar.
Assim tem sido a humanidade desde aquele tempo ... O tirano da ficção, metáfora de tantos soberanos ou das elites privilegiadas, quase quase triunfou. Bolou um plano e guardou bem escondido o segredo da pedra filosofal com a qual se fez poderoso. Pegou uma arca, socou lá dentro o valor da oralidade, a imaginação, a felicidade do reino, a alegria, a liberdade, o amor, a auto-estima, tudo, tudo de bom que havia. E se declarou o maior astro pop de todos os tempos.
Só que ele não contava com o aparecimento de Dora... Danada como era, driblou os seguranças e, em busca de um autógrafo, xeretou o camarim da mega pirâmide cinco estrelas. A garota era lá uma jovem... quase criança ainda e não conhecia bem os rigores da lei. Percebeu que as máscaras que o soberano usava eram todas iguais: revestidas de jóias, ouro e prata por fora, aparentemente lindas, entretanto, ocas. E ele era humaníssimo como qualquer um. Sob a luz difusa das tochas, parecia um semideus, mas qual nada! Nada de deus grego nem romano nem egípcio. Era falível também. Errava. E o seu grande descuido foi não trancar bem a arca sagrada dos segredos.
Dora, atenta a tudo, descobriu-a e futucou-a. Descobriu, então, surpresa: a cegueira imposta aos homens de seu tempo. Dispersos, ofuscados pelas luzes do palco armado, surdos pelos decibéis pops, mudos pela censura imposta, não percebiam que há muito lhes fora tirado o que havia de mais precioso: a curiosidade. Doutrinavam cegamente a sociedade inteira e educavam as crianças ensinando-lhes o autoritarismo para os vencedores e a droga da obediência para a massa. As respostas aos seus porquês eram assim: porque sim, porque não, porque eu quero... nada de explicação! Só a imposição da força.
Astutamente, a menina então vestiu a fantasia, alimentou-se da esperança e abraçou a curiosidade. Escreveu tudinho no primeiro papiro que achou e, com o pó de pirlimpimpim que já era conhecido das antigas arcas, soproueste segredo em um objeto : um livro!
Até hoje, tempo tão tão tão distante daquela era ... vira e mexe, quando alguém o abre, folheia e lê, pode de novo resgatar a humanidade outrora perdida, a esperança, a capacidade de sonhar. E ser feliz


(aos atentos gramatiqueiros de plantão, observem acima: não foi um erro de digitação, a história não tem ponto final!)

(Risos pelo devaneio)

Então, colegas, quando cremos que na literatura cabem todas as possibilidades que a História Oficial nos negou, temos a exata consciência de que a ditadura, a opressão, a ordem estabelecida até então, a tirania, o poder cego... todos os desvarios das classes dominantes podem, sim, ser abalados.

Uma pausa para pensar Balzac: “A literatura é a história privada das nações”.

Quem conta o conto sempre igual é porque perdeu o que de humano tinha: a autonomia, o raciocínio, a criatividade, a audácia, a possibilidade. Lembro O Velho e o Mar e penso que o ser humano pode ser destruído, mas derrotado não. Lembro as histórias fabulosas que nos doutrinaram com a idéia de que a lei é a do mais forte, que o esperto é quem vence, que quem espera sempre alcança. Então aplaudo os que tiveram audácia de criar e recriar o mundo, pela imaginação e na realidade, provando que é possível
sim, que haja histórias diferentes, diversas... Paráfrases, fusões, re-invenções... ( Cecília não poetizou : “A vida só é possível reinventada!” ? )
Se assim não pensamos, torcemos sempre para a força da Mônica derrotar a inteligência do Cebolinha, para a esperteza do Jerry vencer, humilhar e maltratar o Tom, para o Zé Carioca sempre fugir de suas responsabilidades e reforçar o estereótipo de malandro brasileiro com que o Walt Disney nos "presenteou".

Ainda bem que se pode contar A NOSSA HISTÓRIA de uma outra forma, ainda bem que o mundo MUDA , que NADA DO QUE FOI SERÁ DE NOVO DO JEITO QUE JÁ FOI UM DIA,que nem toda FEITICEIRA É CORCUNDA, senão , nós , brasileiros, seríamos todos só BUNDA (valeu, Lulu, Rita e Zélia!).

Ao invés de repetirmos em sala de aula apenas o que aprendemos, com tantas e tantas limitações e pontos de vista impregnados do discurso oficial, da lei da elite , da visão de quem vence, da ótica de quem tem o poder, como , infelizmente, a História do Brasil que nos é contada em sala do fundamental ao ensino médio, façamos com nossos alunos e conosco um resgate daquilo que nos roubaram pela tirania e pelo abuso de autoridade, de poder: a nossa capacidade de perguntar POR QUÊ ?
Deste modo, em vez de decorar todas as datas dos fatos, entenderemos que estudar história é mais que mera cronologia: é análise de causas e conseqüências, é possibilidade de transformação pela conscientização de que somos os sujeitos do nosso tempo, da História e da nossa vida.
Também deste modo poderemos dizer aos nossos alunos que a Arte é essencial porque é o fruto da sensibilidade, da alma, dos sentimentos humanos... algo tão desvalorizado em mundo de materialismo e capital, de consumo e de bens. Então, poderemos seduzir os jovens e lhes transmitir a necessidade de resgate do interesse por si mesmo (e não pela celebridade da nova novela); pelo outro próximo e também distante ( e a alteridade não será somente uma palavra "difícil", mas compreendida como parte e complemento do que somos); pelo meio em que vive (social, político, cultural) e pelo ecossistema, entendendo-se como parte dele e não apenas "um turista dentro da placenta do planeta azulzinho" (não é, Arnaldo, Marisa e Carlinhos?).

Então, leitores da palavra, leitores da vida, de si, do outro, do mundo, entenderemos, nós , professores e alunos, que, na literatura, por ser o espaço do possível, cabe até o impossível!


"A vida só é possível
Reinventada !"
Cecília Meireles



Alena Cairo 13/03/2006

Quinta-feira, Março 09, 2006

Oi, Sérgio e pessoal!!!

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Leituras contemporâneas ou falta de criatividade?

Reino de fadas às avessas
Escritores embaralham clássicos e criam versões em que o lobo é bom e a princesa, rebelde

POR GABRIELA ROMEU

Nem tudo transcorre segundo as regras estabelecidas há séculos no reino dos contos de fadas, com narrativas que misturam personagens tipificados, estrutura determinada e dilemas existenciais, além de ingredientes como encantamentos, metamorfoses e provações. A história pode ter versões diferentes daquelas recolhidas, registradas e (re)inventadas por Charles Perrault, irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Ou seja, nem sempre o lobo é mau, e a princesa às vezes é rebelde.

Essa desconstrução do reino do "era uma vez" é constantemente promovida por escritores contemporâneos de literatura infantil. São autores que bebem nas fontes dos textos tradicionais, mas modificam a ordem narrativa, invertem o papel de personagens e brincam com as conhecidas fórmulas dos contos de fadas. Clássicos, aliás, cuja leitura, segundo Bruno Bettelheim, em A psicanálise dos contos de fadas (Paz e Terra), é de extrema importância para o desenvolvimento infantil. Os contos de fadas, explica Bettelheim, anunciam já nos primeiros anos de vida que a luta contra as dificuldades é inevitável.

Em algumas obras, os personagenstipo dos contos de fadas - princesas, fadas, seres encantados, por exemplo - são virados do avesso. É o caso de Procura-se lobo (Ática), da escritora laureada com o Prêmio Hans Christian Andersen, Ana Maria Machado. Famosos em histórias como Chapeuzinho vermelho, Os três porquinhos e O lobo e os sete cabritinhos, os lobos estão na pior, à procura de emprego, e decidem responder ao seguinte anúncio publicado no jornal: "Procura-se lobo, adulto, de boa aparência, com experiência comprovada, para trabalho de responsabilidade. Pagase bem". Lobos que habitam diferentes contos de fadas, além de mitos, fábulas e lendas, mandam uma carta para destacar e enaltecer suas características.

O lobo é também o personagem central de A verdadeira história dos três porquinhos!, escrita por Jon Scieszka e ilustrada por Lane Smith, uma dupla americana famosa pelos livros que versam sobre contos e fábulas. Alexandre T. Lobo é o narrador que traz uma versão bem desconhecida dos leitores sobre Os três porquinhos. Alex, como o animal prefere ser chamado, diz logo de cara que não tem culpa que os lobos se alimentam de coelhos e porquinhos - "É apenas nosso jeito de ser". Na verdade, essa história de que o lobo bufou e assoprou a casa dos porquinhos começou quando o animal foi preparar um bolo para o aniversário de sua vovozinha. Como faltava uma xícara de açúcar para concluir a receita, teve a idéia de bater na porta dos irmãos porquinhos: o resto todo mundo conhece.

Entre as obras de Scieszka, também vale ler O sapo que virou príncipe - continuação. O livro fala do que aconteceu com o Príncipe Sapo - aquele que beijou a princesa e ficou livre do feitiço da bruxa - depois do "felizes para sempre". "Na verdade, estavam levando uma vidinha miserável", revela logo de cara o escritor. Na obra O patinho realmente feio e outras histórias malucas, o autor conta que esse famoso personagem de Andersen cresceu sim, mas, na verdade, não virou cisne. As obras do Scieszka estão publicadas no Brasil pela Companhia das Letrinhas.

E se toda princesa é dócil, recatada e submissa no imaginário infantil, Formosura surgiu para mudar isso de uma vez por todas. Em A princesinha boca-suja (Scipione), o autor Cláudio Fragata desconstrói mais uma personagem-símbolo dos contos de fadas. Formosura não está à espera de um príncipe encantado, é valente e diz tudo o que dá na telha - para desespero de Cinderelas, Brancas de Neve e Rapunzéis. O ilustrador Odilon Moraes, premiado com o livro A princesinha medrosa (Companhia das Letrinhas), encontra o tom certo para misturar delicadeza e rebeldia em Formosura.

A fada afilhada (Salamandra), de Márcio Vassallo, revela já no título a inversão de papéis da história. Até quem sempre dá colo precisa de colo, explica o autor. É o caso da fada madrinha Beatriz, que cuidava de todo mundo, até que um dia ficou com "torcecolo" (um problema de colo torcido) de tanto resolver problema de príncipe que não sabia matemática, de princesa que se achava feia. A inversão do papel da fada madrinha proporciona que o pequeno leitor se coloque no lugar da figura maternal que carrega o mundo nas costas. A ilustradora Marilda Castanha criou a "roupa" - assim como diz Vassallo - da história.

O encontro de vários personagens em uma só história não é idéia original, é constante em diversos livros infantis, mas rende enredos dignos de leitura. Em Chapeuzinho adormecida no país das maravilhas (FTD), o escritor e roteirista Flavio de Souza traz um pai que tem de contar uma história para a filha à noite. Como ele não se lembra bem dos detalhes dos contos, mistura uma história com a outra, uma divertida confusão. O autor é mestre em fazer jorrar água fresca das fontes dos contos clássicos.

Clássico nas escolas hoje já virou o livro Que história é essa? (Companhia das Letrinhas), em que Souza resgata personagens que são meros figurantes da narrativa. Ou alguém já leu João e Maria sob a ótica do passarinho que come as migalhas de pão deixadas propositadamente pelas crianças no caminho? O mais divertido é que o autor embaralha o título das histórias - Ao Roã Meija é João e Maria e Ora Camalba de Die é A bela adormecida - para desafiar o leitor a descobrir a qual conto o personagem pertence. São saborosos os textos que acompanham cada conto, que sempre enfatizam o fato de algumas histórias terem versões diferenciadas - como Chapeuzinho vermelho, recontada por Perrault e pelos Grimm.

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Que leituras podemos fazer desse quadro?

mimesis2

Um quadro de Magritte... Para aqueles que têm estudado a arte e suas representações, um prato cheio de análises...
Vamos lá?

Pra começar...

Caros companheiros do Núcleo Oficina de Leitura e Escrita das Faculdades Jorge Amado - professores e alunos - aqui começa nossa jornada virtual.
O espaço é aberto para trocas, textos, indagações, dúvidas cruéis, questionamentos, certezas absolutas, conceitos, definições, mensagens, teorias dificílimas, tudo relacionado com essa disciplina que transita por todos os corredores e salas das FJA... enfim, é um espaço criado para nos manter unidos.